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As perigosas e bem-humoradas aventuras de um repórter de Veja nas entranhas da Amazônia

Até ser chamado pela revista Veja para ser correspondente na Amazônia, em dezembro de 1997, o jornalista Klester Cavalcanti, 32 anos, conhecia esta região do Brasil como a maioria dos brasileiros conhecem, através de livros e enciclopédias e de uma ou outra informação que circula aqui e ali. O convite imediatamente disparou o espírito de reportagem que, em Klester, corre nas veias. Aceitou na hora.

Exatamente dois meses depois o repórter desembarcou em Belém. Ficou na Amazônia por mais de dois anos, percorrendo todos os Estados da região e centenas de cidades, conhecendo de maneira íntima - tal qual Klester queria quando embarcou na aventura - a realidade da região dos maiores recursos naturais do planeta, e produzindo uma série de reportagens que aproximou a Amazônia dos brasileiros tiveram repercussão mundial.

Alguns anos mais tarde, em 1999, Klester receberia o prêmio mais importante de sua carreira, entre os muitos que recebeu: o de Melhor Reportagem Ambiental da América do Sul, dado pela Reuters e pela IUCN (The World Conservation Union).

Mas a maior reportagem já feita sobre a Amazônia, Klester conta agora, em seu livro "Direto da Selva - As aventuras de um repórter na Amazônia" (Geração Editorial, 256 pgs., R$ 28,00). Sem dúvida, é inegável a pertinência e a importância das matérias que Klester produziu - e que Veja publicou - durante o tempo em que esteve na floresta.

Os grandes jornais e revistas, entretanto, já não têm espaço para as longas narrativas sobre a aventura humana, os personagens interagindo no habitat, com suas grandes e pequenas tragédias - ou comédias. No seu livro, Klester está à vontade para narrar - na primeira pessoa - a sua incrível aventura.

No estilo que caracteriza esta nova coleção de livros - Vida de Repórter - o repórter mesmo é o personagem principal de sua reportagem, de seu drama, do seu olhar sobre a natureza, os animais, as árvores, os rios e os homens que ali convivem.

Não são muitos os repórteres que, desde Euclides da Cunha, para O Estado de S. Paulo, se aventuraram na selva amazônica. É preciso mais do que coragem para enfrentar os mais terrível obstáculos. É preciso muita determinação. Klester teve tudo isso.

Em sua reportagem, narrada com graça , estilo e vigor, surgem os desmandos que se cometem na Amazônia - os desmatamentos, a violência pela terra, a miséria, o drama dos índios. É com estes - e com os desmatadores, os caçadores, os garimpeiros, os latifundiários e seus capatazes que Klester convive, sem se abalar, sem fazer concessões sequer ao índio que se diz puro e se revela, depois, aculturado e opressor.

Seus personagens principais são o homem e a floresta. Logo que desembarcou na Amazônia, Klester sobrevoou a floresta na região de Roraima, onde um incêndio de proporções catastróficas configurava um dos maiores desastres ecológicos do planeta. O repórter viu do céu o fogo se espalhar com a velocidade de um fórmula um, comprometendo uma área maior que a de muitos países europeus. Viu também todos os rios secos, e foi obrigado a concordar com a grave sentença do piloto do helicóptero: "Esse incêndio só vai acabar quando Deus quiser", indicando que a chuva era a única forma de acabar com a tragédia.

Logo de cara enfrentar uma situação desse gênero já seria uma prova de fogo - literalmente - para qualquer repórter. Mas era só o começo. Klester iria conhecer ainda o lado violento da floresta. As ameaças de poderosos incomodados com a presença da imprensa viraram rotina. Mas uma rotina que, a qualquer hora, poderia acabar mal. No momento mais delicado, Klester foi amarrado violentamente em uma árvore para conhecer de perto a famosa lei da selva. "Se a matéria sair a gente volta para terminar o serviço", sentenciaram os bandidos. Foi um alívio, pois Klester soube que, pelo menos naquela hora, não morreria. A reportagem? Veja publicou, é claro.

E sai de novo agora, ainda mais completa e detalhada em "Direto da Selva". Apesar de, até por dever de profissão, o autor ser obrigado a revelar este lado negro da Amazônia, o livro não trata só disso. Há espaço também para as histórias que nos fazem crer que, sim, ainda há salvação. O repórter nos aproxima de personagens que não vemos no dia-a-dia e nem na literatura. Mas são reais, sejam os índios com sua sabedoria milenar, de tribos que nem ao menos sabíamos que ainda existiam, sejam pesquisadores que abandonaram tudo para dedicar-se ao estudo e preservação da floresta amazônica, fazendo solitária e anonimamente seu trabalho no meio da mata.

E, é claro, não ficou de fora o enorme número de mistérios da região. Alguns provocados pela própria natureza e pelas lendas e mitos que povoam a floresta. Outros, provocados pelo próprio homem mesmo, como: "O que estará fazendo uma estação da Nasa no meio da Amazônia, explicando genericamente que se trata de 'pesquisa'?"

"Direto da Selva - As aventuras de um repórter brasileiro na Amazônia" está catalogado como um livro-reportagem. Mas não estará enganado quem o tomar por um livro de aventuras. Ou, ainda, por uma grande crônica, tal o sabor com que as histórias são narradas. Como já foi dito, com toda a dimensão humana que nem sempre encontra o espaço que merecem nos jornais e revistas. Klester trouxe esta dimensão à tona, revelando, por isso mesmo, a Amazônia em toda a sua plenitude. Um trabalho fundamental para os brasileiros e para qualquer cidadão do mundo.

Entrevista com Klester Cavalcanti

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