A intenção do autor, o jornalista José Maria Mayrink, era inicialmente reeditar o livro Anjos de Barro, publicado em 1986 pela EMW Editores, hoje Geração Editorial, que lançou também outras obras suas – Solidão, Filhos do Divórcio, Três Vezes Trinta e Vida de Repórter. Não seria só uma reimpressão, mas uma versão atualizada, para mostrar como estão os personagens e as instituições retratados 21 anos atrás. Em colaboração com a Oboré – Projetos Especiais em Comunicações e Artes, boa parte dessa atualização chegou a ser feita. Estagiários da Oboré, que eram alunos ou recém-formados em jornalismo do Projeto Repórter do Futuro, conferiram as histórias e chegaram a produzir textos que seriam anexados à edição original. Foi um trabalho muito bem feito, mas Mayrink decidiu não relançar o livro.
“A situação mudou muito e eu concluí que não seria honesto republicar Anjos de Barro se não fizesse, pessoalmente, uma revisão completa”, justifica Mayrink. O jornalista acha que teria de voltar a cada instituição, para conferir sua evolução e conversar com todas as pessoas que havia entrevistado antes. “A realidade é certamente outra, pois hospitais, escolas e casas de assistência para meninos e jovens, hoje adultos, que visitei nos anos 80 já não são mais a mesma coisa”. A evolução foi, em geral, para melhor, mas algumas instituições fecharam as portas. Seria outro livro, principalmente porque vários personagens já morreram.
Diante do interesse que Anjos de Barro despertou, Mayrink preferiu colocar o original à disposição dos leitores com uma versão eletrônica que Geração Editorial apresenta no seu site (http://www.geracaobooks.com.br/), com download gratuito para quem quiser ler ou até copiar
o livro. A decisão se justifica, segundo o autor, pelo fato de muitas pessoas continuarem procurando Anjos de Barro. São principalmente pais e parentes de crianças especiais (Mayrink não as chama de excepcionais) em busca de informações e de depoimentos que, embora sendo de 21 anos atrás, permanecem atuais pela força do testemunho e pela emoção de suas histórias.
A começar pelo prefácio escrito por Henfil. Ali, naquelas páginas iniciais, comoventes e às vezes engraçadas, o chargista, escritor e jornalista mineiro refere-se, pela primeira vez, ao risco que a aids representava para ele e seus irmãos, Betinho e Chico Mário, todos hemofílicos. Dependentes de transfusões de sangue, contraíram o HIV e morreram pouco tempo depois. A luta da família contra a hemofilia, que Henfil narra com revelações detalhadas, fez do prefácio um capítulo a mais de Anjos de Barro.