Como numa história
de Kafka, o jornalista Humberto Rodrigues foi preso
e condenado por um crime que não havia cometido.
Coube-lhe – até ser absolvido, um ano e meio depois
– viver dias terríveis nas celas do maior presídio
da América Latina, o lendário Carandiru. Dessa tragédia
nasceu um livro no qual, com um estilo que lembra
Graciliano Ramos, mas menos amargo, o autor nos
emociona com uma revelação surpreendente: no meio
do inferno e convivendo com monstros, ele conseguiu,
de forma comovente e bela, encontrar resquícios
de esperança e humanidade.
Em linha diversa do adotado em “Estação Carandiru”,
o fascinante painel descrito por Dráusio Varela,
“Vidas do Carandiru”mostra um lado até então insuspeitado
da prisão. No meio do inferno e no coração do monstro,
por incrível que pareça, podem pulsar não o terror,
o medo e a morte, mas também a esperança e o otimismo
dos que, apesar de toda a dor, ainda não desistiram
da vida.
NO
CORAÇÃO DAS TREVAS
Era uma tarde
comum – 23 de maio de 2000 – quando começou essa
história kafkiana. Humberto Rodrigues tinha 65 anos
e era um jornalista respeitado quando foi levado
por policiais, jogado em uma cela infecta e em seguida,
para sua perplexidade, condenado pelo crime que
não havia cometido. Durante 514 dias, coube-lhe
viver uma experiência extrema.
Profissional acostumado com o sucesso, com os melhores
hotéis e restaurantes, a história de Humberto Rodrigues
causa choque e surpresa. Choque porque o leitor
sente-se acompanhando o autor ao longo de uma narrativa
vigorosa, em que o homem é reduzido a quase nada.
Surpresa porque, por mais incrível que possa parecer,
Humberto conseguiu sobreviver à experiência sem
qualquer resquício de rancor.
Diferente de outros célebres retratos sobre a prisão
e em especial o Carandiru – como o amargo “Memórias
do Cárcere”, de Graciliano Ramos, o surpreendente
“Estação Carandiru”, de Dráusio Varella, e o explosivo
“Pavilhão 9”, de Hosmany Ramos – esse “Vidas do
Carandiru” é o primeiro depoimento que revela esperança
e otimismo em meio à dor, ao terror, ao medo e à
morte.
Lição de vida? Talvez, mas o ponto central do livro
são as histórias apresentadas de forma direta e
honesta de homens que chegaram ao extremo mais degradante
da condição humana. Na primeira parte, é a história
do jornalista que é contada pelo próprio, em forma
de diário, lembranças, reflexões e meditações. E
fatos: a amizade que fez com dois homens, posteriormente
acusados de roubo de quadros, o levou a caminhos
que jamais imaginaria ver em vida. Lá fora, a família
com quem já não mantinha relações e que, por uma
dessas linhas tortas da vida, a prisão acaba por
promover uma completa mudança.
Do lado de dentro, a dura realidade de uma escola
que não poderia preparar melhor o crime. Humberto
sentiu na carne a entrada nessa “universidade da
violência” nos primeiros 43 dias que passou numa
cela de delegacia, o Depatri, onde conheceu o espancamento,
a tortura e um tratamento que reduz a dignidade
humana ao mais completo vazio.
Depois, surpreendentemente, os 471 dias de Carandiru
pareceram ao autor o paraíso quando comparados ao
estágio anterior. Humberto deu aulas de português
e matemática, escreveu o seu livro, viu e sentiu
claramente que sem uma completa reformulação dos
sistemas prisional e – principalmente – jurídico,
tudo o que se diz e faz para combater a violência
é mero paliativo. Na segunda parte do livro, Humberto
Rodrigues contou a história de doze presos, companheiros
de infortúnio. São histórias reais, todas dramáticas,
e que permitem que o leitor tire a sua própria conclusão.
“É indispensável para a saúde da sociedade que o
que esteja escondido, por detrás dos muros, seja
trazido à tona. Por isso é que vejo com bons olhos
a literatura que se tem produzido nos presídios
e estamos lançando mais dois novos títulos nessa
linha”, afirma Luiz Fernando Emediato, proprietário
e editor da Geração Editorial.
Com Emediato concorda o professor e jurista Ives
Gandra Martins, que prefacia a obra: “O livro de
Humberto Rodrigues mostra, sem preconceitos, exageros
ou justificativas, um mundo diferente do que conhecemos”.
E completa: “Estou convencido de que o livro servirá
de alerta e permitirá a reflexão por aqueles que
têm a obrigação de cuidar da segurança pública e
da recuperação de criminosos, não devendo a sociedade
alhear-se de reflexão semelhante. O livro, todavia,
não merece ser lido por este grito de alerta, mas
também porque é bem escrito”.
O jornalista Humberto Rodrigues poderia nos ter
apresentado a intimidade da cadeia em números. Um
presídio que abarcava, pouco antes de ser extinto,
7 mil presos, o dobro da sua capacidade, e que tinha
80% de sua população com tuberculose e um em cada
sei com Aids, expostos a um atendimento médico e
alimentar bastante precário, já seria motivo de
reflexão. No entanto, Humberto é também escritor,
e optou pelo caminho de contar a história das pessoas
que estão por trás dos números do seu prontuário.
Daí o título: “Vidas do Carandiru – Histórias Reais”.
Daí a força deste relato de alguém que conheceu
o subterrâneo e decidiu juntar forças para contar
o que viu por lá.
“Condenaram-me, mas não me condeno”, afirma o autor.
Leia
entrevista com o autor do livro Humberto Rodrigues