O jornalista Humberto Rodrigues, foi preso por um crime que ignorava, julgado a revelia (sem ser ouvido pelo juiz) foi condenado e encaminhado ao maior presídio da América Latina: O Carandiru, com o estigma de muitas mortes e rebeliões. Por causa da morosidade de nossa justiça, foi absolvido por instância superior, somente um ano e meio depois.
Durante esse período, condenado a viver a mesma danação de seus companheiros, escreveu este livro, contando a sua história e a de doze companheiros. Disso resulta um relato pleno, é claro, de sofrimento, angustia e solidão. Mas também – O mais surpreendente – o livro “Vidas do Carandiru” é uma mensagem de otimismo e esperança.
Como é estar em liberdade de novo e escrever um livro cuja a 1ª edição esgotou nos primeiros 22 dias, após seu lançamento?
Humberto - É a reconquista de todos os valores que o ser humano possa ter. Poder apreciar a folha que cai com o vento, do café que tomamos com os amigos, que de tão amargo se tornou doce. Ganha-se humildade e aprende-se a meditar, a dar mais valor as amizades e a família.
Embora traumática, a prisão foi uma experiência muito valiosa. Isso porque tenho estrutura cultural e social, senão, provavelmente, naufragaria.-
Quanto ao livro é gratificante sentir seu sucesso. A sociedade precisa de parâmetros e superlativos e o livro é isso. Não ficcionei nada, só procurei mostrar o quê vivenciei – a terrivel e bela verdade humana – contando histórias e mantendo o tônus e a energia vital. Por esse motivo que dei ao livro o título de “ VIDAS DO CARANDIRU ” . Escrevi o pulsar da vida, sem roteiros e sem mentiras...porque toda existência dá um romance. Só espero que o livro possa revelar à sociedade, ao nosso país que os presos também são seres humanos e que deveriam ser tratados como tal. Se conseguir atingir esse objetivo, vou me sentir recompensado.
Muitos perguntam se eu pretendo escrever outro livro, mas infelizmente no Brasil é difícil sobreviver como autor, Quero aproveitar e externar meus agradecimentos ao dr. Ives Gandra Martins, que me incentivou, apoiou e prefaciou o livro, quando eu era um mero presidiário .
Por que você foi preso?
Humberto - Sabe aquela dia em que você está no lugar errado , na hora errada e na companhia errada? Eu apenas levei um conhecido na casa de um marchand para ele vender um quadro. Depois ele voltou e assaltou a casa. Preso, assumiu tudo: réu confesso. Mas o parceiro dele afirmou na delegacia que fui eu quem deu o endereço e consideraram-me o mentor do assalto sem que eu soubesse de nada. Por causa da morosidade da justiça, acabei encarcerado por 471 dias no Carandiru após 43 dias no DEPATRI, que era muito pior que o primeiro, tanto que suas instalações carcerárias, seis meses depois, foram desativadas. Aquilo parecia um navio negreiro, era claustrofóbico, dantesco. As celas ficavam no 3º sub-solo, sem luz, cheio de umidade, com capacidade para 12 presos e uma população 4 vezes maior. Quando me colocaram lá, tive a sensação que estava entrando em uma cela com 50 gatos e eu era o passarinho. Ledo engano, os presos são solidários. Embora lá, cada ser está entregue a sua capacidade de construir sua solidariedade e administrar a sua solidão, mesmo porquê você fica incomunicável com o mundo aqui fora.
Como foi no Carandiru?
Humberto - Este presídio que era o maior da América Latina, representava um estigma tenebroso. Ele não era tão ruim assim. Descrevo através do meu diário o dia a dia de como é viver lá. Os próprios presos é que o transformaram em um monstro, em função dos maus tratos que recebiam. E eu não era um visitante ocasional, um médico, um pastor ou padre levando avante seu trabalho benemérito. Era um preso vivendo diuturnamente a mesma danação de meus companheiros de infortúnio, assim passei um ano e meio lá e dessa fatídica experiência nasceu o livro, com doze histórias de meus companheiros e o meu diário. Estive presente na rebelião de 18 de Fevereiro de 2001, que abrangeu 28 presídios. Aquilo era um barril de pólvora sempre pronto a explodir.. Felizmente neste dia o Senador Suplicy apareceu por lá e, olho no olho, garantiu os nossos direitos humanos.
O pior, para mim, aconteceu em janeiro de 2001, quando meu advogado morreu. Fiquei à mercê do imprevisto até que minha filha, que ignorava a minha prisão e é uma brilhante advogada, apareceu e me absolveu em instância superior. Essa permanência não foi fácil não, embora tenha uma estrutura psicológica forte e suportei da melhor forma. Me transformei em professor, tinha diálogo e era benquisto por meus alunos (reeducandos). Mas pegue 7500 presos, com os nervos à flôr da pele e imagine o quê acontece, num lugar com capacidade para alojar 3000. Vi presos degolados pelos próprios companheiros. Qualquer coisa era motivo de brigas, um desrespeito às visitas, uma palavra hostil, uma dívida, porque a maioria dos presos quando chegam passam a fumar maconha; eles ficam devendo e morrem. É a lei do cão.
Quais são os direitos dos presos?
Humberto - A superlotação, a morosidade do Judiciário e o descumprimento parcial de LEP (Lei de Execuções Penais) deixa todo mundo louco. Por mais analfabeto que o preso seja, ao chegar no presídio, fica sabendo por intermédio de seus companheiro os direitos que tem. Quando o preso atinge um terço da pena, passa pela CTC (Comissão Técnica de Classificação), que é um exame social, psicológico ou psiquiátrico. Só que esses exames são estereotipados. É possível faze-los em apenas 2 minutos? Aí ele é reprovado e perde os benefícios da Lei. Quem deveria ser reprovado são os profissionais da saúde dos presídios que não tem capacidade. Isso revolta o preso e consequentemente surgem tentativas de fuga e rebeliões. Isto era o Carandiru.
E a desativação do Carandiru?
Humberto - Foi desativado porque era um estigma. Para satisfazer a sociedade em vésperas de eleições. Vai surgir um parque, vai ficar bonito. E daí? Para onde vai toda a população prisional de mais de 100 mil presos, se o Estado tem capacidade para 65 mil? É a mesma coisa que fazer uma maquiagem sobre uma ferida. Um país que tem a 2ª pior distribuição de renda do mundo, com quarenta milhões de miseráveis, vai precisar de muitos presídios. O que fazer? A não ser que o novo governo dê um jeito. Estou torcendo.
E o futuro?
Humberto - A dor passa e a cicatriz fica.
Agora quero conviver com meus filhos, Marina ( 29 ) e Marcelo ( 22 ). São o meu tesouro. Eu era um bom vivant e derepente descobri que a família e Deus têm um papel essencial. Não sou religioso, não gosto de dogmas, não preciso de intermediários para falar com Deus,, de acordo com Flamarion “ tenho por templo o Universo e por altar a próprio consciência “ .
E vamos que vamos.
Como diz Gilberto Gil – “ Na vida não existe caminhos, apenas o caminhar” E vamos respeitar o homem, pois agora ele é Ministro da Cultura.