Hosmany Ramos era
um médico famoso, intelectual refinado, no final
dos anos 70, quando, de repente, por razões que
nem ele mesmo consegue explicar, viu-se do outro
lado da lei. Está preso desde 1981. Na prisão, fez
cirurgias plásticas restauradoras em presidiários
feridos; aprendeu a pintar e dedicou-se, finalmente,
à literatura. Um de seus livros, Marginalia, foi
descoberto na França, recentemente, e publicado
na famosa Serie Noire, de literatura policial, pela
editora Gallimard, uma das maiores do mundo. Pavilhão
9 – publicado no Brasil pela Geração Editorial,
e também lançado pela mesma Gallimard,
numa edição ilustrada.
Seqüestro Sangrento, que a Geração Editorial lança
na coleção Carpe Diem, ao lado de autores consagrados
do mundo inteiro, é prova inconteste de que Hosmany
transformou-se realmente num escritor. Em pleno
domínio do processo narrativo, é impressionante
como ele recorre a acontecimentos do Brasil moderno,
real, do qual tem notícias apenas pelos jornais,
revistas e TVs, para fundi-los com suas próprias
experiências no mundo do crime. Personagens reais
e imaginários cruzam-se num mundo de violência,
crueldade, corrupção e falta de perspectivas. A
tensão dura o tempo todo. O final, terrível, imprevisto,
fecha o círculo da desumanidade. Para Hosmany Ramos,
poucos se salvam. Não há lugar para heróis ou para
gente pura no mundo cruel do escritor Hosmany Ramos.
O autor e sua obra
"Existe um inegável fascínio pelos relatos feitos
por encarcerados. Descobre-se, sobretudo, como um
ser humano consegue sobreviver num apêndice do inferno.
O livro Pavilhão 9, do médico e presidiário Hosmany
Ramos, carrega diversas histórias bem contadas,
alguns contos de ficção e relatos pessoais, guardando
uma surpresa ao final: um capítulo (que dá nome
ao livro) que narra os eventos do 2 de outubro de
1992 na Casa de Detenção, em São Paulo, em que,
após uma rebelião no pavilhão 9, detonadas por uma
briga entre presos, morreram 111 detentos. (...)
Em Pavilhão 9, muitos contos são elaborados com
todos os requisitos que definem uma boa narrativa.
Há surpresa, ação e, sobretudo, vida. Destacam-se
o conto que abre o livro, “Jogo de Xadrez”, em que
presos em uma cela contam seus crimes mais bárbaros
e o conto em que um funcionário do IML desce em
pé o cadáver de uma loira num elevador lotado.
Na melhor história do livro, “Visita na Cela”, um
preso que sofre de priapismo fica “entalado” à sua
visita íntima. Os dois corpos num só despistam a
guarda e passam uma semana grudados na cela, criando
técnicas para as atividades diárias, como banho
e higiene, e se amando sem parar.
(MARCELO RUBENS PAIVA, Folha de S. Paulo)
“Fios brancos, esvoaçando em revolta na cabeça;
olhar de aço que parece cortar a gente, uma blusa
branca amassada que termina numa gola olímpica deformada,
a tradicional calça cáqui de presidiário, e o tênis
preto que lhe dá leveza no caminhar. Depois de Paulo
Coelho, Hosmany Ramos é o mais novo sucesso literário
brasileiro na França. Seu livro Marginalia foi lançado
pela importante editora Gallimard e vendeu bem.
(...) Por trás do olhar metálico do autor de sete
livros, vêem-se 20 anos de cadeia, meia-dúzia de
fugas frustradas e uma pena de três décadas ainda
para ser cumprida.”
(DANILO ANGRIMANI, Jornal da Tarde)
Marginália é um grande livro, um olhar extraordinário
para o universo da prisão e de si mesmo, violento
e introspectivo ao mesmo tempo. Não se parece com
nada.
(PATRICK RAYNAL, editor da Gallimard)
“Hosmany Ramos propõe uma viagem ao fundo do niilismo
contemporâneo. Não sei por que milagre uma tal obra
possa surgir, sobreviver e sair dessa cloaca, nos
mostrando o verdadeiro dia-a-dia, tão tragicamente
humano.”
(MAURICE DANTEC, escritor francês)
“Este Pavilhão 9, de Hosmany Ramos, é uma porrada
que, primeiro, nos tira o fôlego; depois, como acontece
com seus personagens humilhados, espezinha-dos,
aos quais se nega a mínima migalha de dignidade
humana, nos pomos, como diz um dos presidiários
deste relato, a ‘maginar’. A Idade Média vai acabar
quando? Não a Idade Média dos artistas, pensadores,
humanistas, mas dos cala-bouços, dos torquemadas,
dos castigos além das penas. (...)
Não nos iludamos. O enorme contingente de garotos
mal passados dos 18 anos que partem para o crime,
em número cada vez maior, e sobre os quais Hosmany
até derrama um pingo de compaixão, esses garotos
sinalizam algo bem grave: consciente ou inconscientemente,
eles descarregam sua fúria contra um sistema que
lhes negou e nega toda esperança de vida digna.
Nas histórias de Hosmany Ramos, os personagens não
têm saída, mesmo saindo da cadeia. Remoem seu rancor
hora após hora e não vêem a hora de saciar sua revolta
com rodadas de sangue, revolta inevitável contra
a qual ‘só há os demo-rados – mas seguros – remédios
da justiça social’, como escreveu o criminalista
Tales Castelo Branco sobre o projeto de fechamento
do Carandiru.”
(MYLTON SEVERIANO DA SILVA, Caros Amigos)
Leia
manifesto de Hosmany Ramos