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"Viagem ao Mundo dos Taleban" é o relato do único repórter brasileiro - e um dos únicos do mundo - a entrar no território governado pelos autores dos atentados de 11 de setembro e entrevistar integrantes da organização


Imagine estar na pele de um repórter que, por exemplo, estivesse a serviço em um dos muitos morros cariocas que servem de quartel-general para o tráfico de drogas. Imagine que este profissional encontra-se no pico do morro, aguardando uma autorização para entrar e falar com um dos líderes da organização. Certamente uma situação delicada, pela qual muitos dos profissionais de imprensa no Brasil já passaram.

Mas vamos elevar esta situação limite à sua décima potência. Imagine agora que o repórter não está mais em seu país, mas do outro lado do planeta. Ele também aguarda, em um jipe, a ordem para falar com seu entrevistado. Trata-se igualmente de um quartel-general criminoso, só que de proporções históricas e mundiais inigualáveis. O repórter aguardava para falar com um líder da organização taleban - a multinacional do terrorismo que pouco tempo antes havia comandado um ato sanguinário que marcara para sempre a história da humanidade, o atentado às torres gêmeas e ao Pentágono americano, abrindo caminho para a primeira e decisiva guerra do novo século. O jornalista estava em algum ponto do Afeganistão, epicentro de todos estes acontecimentos.

Lourival Sant'Anna é este jornalista. O único repórter brasileiro, e um dos únicos do mundo, a entrar, depois do atentado de 11 de setembro, no território dominado pelos talebans. Foi uma das pouquíssimas pessoas do mundo a entrevistar integrantes desta organização.

Lourival esteve no Afeganistão como enviado especial de O Estado de S. Paulo. O resultado de seu trabalho pode ser conferido na íntegra no livro: "Viagem ao Mundo dos Taleban" (Geração Editorial, 264 pgs., R$ 25,00), mais um volume da Coleção Vida de Repórter.

O título do prefácio do livro, escrito pelo diretor responsável do Estadão, Ruy Mesquita, sugere do que se trata o livro: "A verdade sobre a guerra". Pois a verdade retratada por Lourival não foi encontrada - nem poderia - na imprensa de nenhum dos países envolvidos na guerra, de ambos os lados, tão empenhados que estavam em impor a sua visão dos fatos. A verdade de "Viagem ao Mundo dos Taleban" não é uma só, mas são várias. Lourival teve o senso agudo de perceber que o seu assunto é a história vivida, e que, portanto, se constitui num processo aberto, que nunca se conclui, envolvendo pessoas reais, com sentimentos e dúvidas, nem sempre coerentes, cuja ação pode ser interpretada de diversas maneiras, dependendo da perspectiva de quem olha o seu desenrolar.

Honesto em reportar os fatos, o autor evita forjar conclusões. Escapa da armadilha de apontar mocinhos e bandidos, "o bem contra o mal" de que falou boa parte da imprensa brasileira. Fugiu também da miopia intelectual que identificou o imperialismo americano - esse sim - com o grande satã, chegando quase ao ponto de tratar o terrorismo taleban como atos de heroísmo.

Lourival evita conduzir o leitor a conclusões. Ele os leva, pacientemente pela mão para testemunhar o seu próprio mergulho na realidade do Afeganistão que se seguiu ao 11 de setembro de 2001, sem se preocupar em pintar um quadro coerente e resolvido, mas sim repartir com o leitor suas surpresas, perplexidades e impressões como que ia encontrando pela frente.

O livro apresenta este Afeganistão para o qual se voltaram os olhos do mundo de várias maneiras. Uma delas foi a já citada entrevista com membros da organização terrorista que fez do país a sua sede. Mas há muito mais em "Viagem ao Mundo dos Taleban". De conversa em conversa, de personagem em personagem, a obra vai nos levando, por meio do homem de rua, dos seus sentimentos e entendimento do mundo, para a intrincada teia das relações que se constituem a vida humana em qualquer lugar e em qualquer tempo.

Mais do que um livro-reportagem, "Viagem ao Mundo dos Taleban" é um desses poucos livros que conseguem transpor barreiras culturais, superando o enorme fosso que a cultura e as circunstâncias impõe entre o nosso mundo e o outro. Este esforço, no entanto, revela-se indispensável quando se percebem os atributos comuns em todos os seres humanos, e o quanto é importante tê-los em mente para a compreensão do que está se passando naquele, para nós, remotíssimo espaço geográfico e tempo histórico.

Cada personagem do livro de Lourival é um retrato vivo do drama que se desenrola no Afeganistão, onde a vida se articula a partir de referências étnicas, antes de mais nada, seguida pela vivência religiosa e, só no fim, pela identificação com as fronteiras nacionais. Surge então um retrato de um país condenado pela geografia, artificial e imposta pela colonização, cujo destino dos habitantes é não ter um lugar no terceiro milênio.

O resultado são guerras atrás de guerras, irmãos de cultura separados e inimigos sendo impelidos à convivência forçada, a miséria aterradora. Soma-se a isso o fato de o Afeganistão ter sido joguete dos interesses de outras nações durante séculos e temos o caldo de cultura que gerou o ódio ancestral que serviu de semente para o nascimento de uma organização como a Al-Qaeda de Osama bin Laden.

Por fim, ao lado da análise, "Viagem ao Mundo dos Taleban" vai na contramão das diretrizes que o jornalismo nos impõe em escala mundial. À medida que o tamanho da janela pela qual vemos o mundo se reduz ao da telinha de um televisor, a guerra vai deixando de ter a forma dos grandes relatos épicos e assumindo a aparência de um videogame. As bombas parecem mais irreais dos que as que vemos no cinema. A guerra é distante e asséptica.

Lourival Sant'Anna nos mostra em seu livro que isso não passa de uma ilusão de ótica. A mesma ilusão que tínhamos quando víamos imagens da CNN na época de Bush pai, e que nos mostrava a guerra apenas como riscos de luz na noite escura em direção ao Iraque. O mesmo enredo de videogame, onde tudo parece de mentira, tivemos agora com a atuação de Bush filho no Afeganistão.

No entanto, se nos aproximarmos do fato, como o repórter Lourival Sant'Anna fez, veremos de novo as emoções humanas no limite, a tragédia que a guerra impõe, com explosões reais que mutilam corpos e matam seres humanos, destróem edifícios e plantações, geram a fome e mais órfãos do que heróis. Em "Viagem ao Mundo dos Taleban" a guerra continua sendo feita de sangue e de ódio.

É esta história real que o repórter põe diante dos nossos olhos, com a força e a autenticidade de um relato onde se pode reconstituir todos os meios tons que se perderam na cobertura "quente" da guerra do Afeganistão.

Leia entrevista com Lourival Sant'Anna

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